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quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Pedobatismo no catolicismo

Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” MATEUS 28.19

O Batismo é um dos mais famosos sacramentos da Igreja Católica Romana. Ordenado por Jesus em Mateus 28.19, o batismo têm sido observado dentro do Cristianismo desde então. Os primeiros Cristãos batizavam os novos convertidos sob a ordem de Jesus Cristo e a Bíblia relata vários destes batismos mostrando a importância de tal rito para a vida cristã.

Na Igreja Católica, o batismo apresenta algumas características peculiares como a remissão do pecado original em recém-nascidos e sua necessidade para a salvação de uma pessoa. Por outro lado, nas confissões de fé protestantes, o batismo é tido como uma representação, uma figura da morte do Cristão para o mundo e de sua ressurreição para a vida em Cristo.

Tanto Católicos quanto Evangélicos aceitam o batismo como uma ordenança de Jesus Cristo. No entanto, diferem nos aspectos relacionados ao significado do batismo e ao modo como é realizado. Nós Evangélicos não cremos que o batismo deva ser ministrado a recém-nascidos e nem que ele é necessário para a salvação. Também não realizamos o batismo por aspersão (derramando água sobre a pessoa), mas sim por imersão (imergindo a pessoa totalmente dentro d’água). Isso se dá, pois a palavra Batismo – do original “βαπτίζω”, baptizo - significa imergir. Desta forma, seria um tanto estranho praticar a “imersão” (batismo) por aspersão.

Gostaria de convidar o caro leitor a analisar mais uma doutrina Católica à luz da Bíblia, buscando comparar o dogma batismal Católico com o que a Palavra de Deus diz à respeito do assunto.

Necessário para a Salvação

Se alguém disser que o Batismo é facultativo, isto é, não necessário para a salvação — seja excomungado.”

 Concílio de Trento, Sessão VII, parágrafo 861

    O batismo é uma ordenança de Jesus Cristo para a vida Cristã. A Igreja Católica afirma que o batismo é necessário para a salvação. Mas será que é isso que a Bíblia ensina?

O sacramento do batismo não aparece na Bíblia como quesito para a salvação em nenhuma passagem. Sua relação com a redenção do homem é simbólica, assim como a eucaristia. O batismo é somente uma representação e não uma obra redentora.

A Bíblia ensina que o batismo deve ser ministrado ao Cristão como símbolo de sua conversão, morte e ressurreição espiritual para uma nova vida em Cristo. Podemos dizer que o batismo não é obra de salvação e sim uma representação de tal obra já efetuada na vida daquele que se batiza.

A Igreja Católica – e mais algumas seitas – ensinam que o batismo é necessário para a salvação, isto é, se uma pessoa não for batizada ela nunca poderá entrar no reino do céu. Os apologistas Católicos tentam encontrar nas Escrituras algum versículo que dê apoio para essa ideia. Analisemos alguns dos mais usados por eles:

O caso de João 3.5

O versículo de João 3.5 diz: “Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”.

Os defensores da doutrina romana sublinham a parte “quem não nascer da água” e focalizam a ideia de que estes não poderão entrar no reino de Deus. Segundo eles, nesta passagem, Jesus estaria ensinando a necessidade do batismo para a salvação. No entanto o sentido das palavras de Jesus não são estes. Provavelmente Jesus estava se referindo à profecia de Ezequiel: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. […] Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.” (Ez 36.25,27). Ezequiel fala de um lavar espiritual e não físico, assim como complementa Paulo, fazendo uma clara refutação ao argumento da salvação pelo batismo: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,” (Tt 3.5). Como podemos ver claramente, não é por obras de justiça praticadas por nós, mas pelo amor, graça, misericórdia e pela ação do Espírito Santo nos concedendo um lavar espiritual que nos torna aptos a entrar para o reino de Deus.

O texto de 1 Pedro 3.21

Este verso diz: “a qual, figurando o batismo, agora também vos salva, não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo”.

Com base neste texto, os apologistas Católicos, ignorando o contexto e separando as palavras “figurando o batismo, agora também vos salva”, dizem que a Bíblia ensina o batismo para a salvação. No entanto, o contexto pode nos mostrar o que Pedro realmente quis dizer. Sendo assim, o texto prossegue: “não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus,”. O que Pedro está dizendo? Pedro está dizendo que a cerimônia Batismal exterior não salva, mas sim a realidade espiritual que o batismo representa. Quando Pedro fala que a salvação não é fruto da “remoção da imundícia da carne” ele se refere ao ato exterior do batismo, isto é, o contato da uma pessoa com a água, onde ela estaria teoricamente se lavando. Logo depois Pedro explica o que realmente salva o homem, ou seja, aquilo que o batismo representa, que é a “indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo.

Portanto, o texto de 1 Pedro 3.21 não ensina a necessidade do batismo para a salvação; muito pelo contrário, mostra que o rito ou a cerimônia do batismo não salva, mas sim o que ele representa: a morte e ressurreição do cristão para uma nova vida.

As palavras de Jesus em Marcos 16.16

Este é o verso áureo dos que creem na doutrina do batismo para a salvação. Jesus diz em Marcos 16.16: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.”. Há uma grande ênfase na primeira parte da frase: “Quem crer E FOR BATIZADO é que será salvo”, afirmam os romanistas. No entanto, Jesus termina dizendo “quem, porém, não crer será condenado”. Percebeu a diferença? Se o batismo fosse necessário para a salvação, certamente Jesus diria “Quem porém não crer e não for batizado será condenado”. Mas foi isso que ele disse?

Jesus coloca a condição de salvação sobre o “crer” e não sobre o batismo, pois se quem não crer será condenado é lógico deduzirmos que quem crer será salvo. Acredito que o que Jesus quis dizer é que o homem que deve crer e passar pela obra regeneradora operada Espírito de Deus. Poderíamos parafrasear Jesus desta forma: “Todo aquele que crer e renascer do Espírito Santo será salvo”.

Concluindo, Jesus não estava falando do batismo físico, cerimonial, ritualístico, mas sim de seu significado, isto é, daquilo que ele representa. O batismo não pode conceder nenhuma graça por si, pois só podemos ser salvos pela graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo (Is 64.6; At 5.11; Rm 11.6; Ef 2.8-9).

O batismo cerimonial (ministrado pelo homem) é uma obra de justiça, e com base nas Palavras de Paulo em Tt 3.5: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,” (assim como ensinado em outras passagens como Rm 3.27-28, 4.2-5, 15.1;  Gl 2.16; Ef 2.9; 2 Tm 1.9 onde podemos ver que obras não salvam) podemos afirmar que o batismo não salva o homem. As obras não são para nos salvar, mas para demonstrar que somos salvos. O batismo representa a salvação do homem, mas não a opera.

Um bom exemplo Bíblico seria o ladrão da cruz que se arrependeu de seus pecados e foi salvo por Jesus sem ter sido batizado (Lc 23.42-43).

Poderíamos ainda acrescentar que a salvação é por meio da graça, operada pela fé através do sangue de Jesus. Em Atos 16.30 o carcereiro pergunta a Paulo e Silas: “Senhores, que devo fazer para que seja salvo?”, à esta questão eles respondem: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa.” (At 16.31). Não falaram nada sobre batismo.

O batismo é de suma importância para a vida cristã plena em Cristo. Seu sentido está em morrer para o mundo e renascer para Cristo. Isto não ocorre no momento do ritual batismal, mas no momento em que a pessoa entrega sua vida a Jesus Cristo. O batismo é a figura daquilo que Deus, por meio do seu Espírito Santo, operou em nossa vida. Portanto, o batismo representa a salvação, mas não salva.

Remissão de pecados pelo Batismo

Em razão desta certeza de fé, a Igreja ministra o batismo para a remissão dos pecados mesmo às crianças que não cometeram pecado pessoal.”

Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 403

    A Igreja Católica ministra o batismo com dois propósitos: anexar o batizado à Igreja e perdoar seus pecados. Outras religiões também têm o batismo como um sinal ou um pacto que é feito entre o batizado e a religião na qual recebeu o batismo. Entretanto, a Bíblia não ensina nada disso sobre o batismo.

O propósito do batismo é evidenciar a conversão, isto é, representar ao mundo, de forma exterior, a conversão espiritual de uma pessoa. Desta forma, o batismo marca o ingresso da pessoa na vida Cristã, como uma representação de sua entrega a Deus. Não é no momento do batismo que uma pessoa torna-se Filha de Deus ou Cristã, pois ela já se converteu espiritualmente e já faz parte do povo de Deus, o batismo é somente uma representação externa.

A Igreja Católica Romana ministra o batismo às crianças e adultos também com o propósito de perdoar seus pecados. A Bíblia, por outro lado, não ensina que o batismo tem função de lavar ou causar o perdão de pecados, pois isto só pode ser feito através do sangue de Jesus Cristo (veja 1Jo 1.7).

A Igreja Católica sugere algumas passagens Bíblicas onde, segundo creem, o perdão de pecados por meio do batismo está evidenciado. Vejamos os mais comuns:

        I.            Pedro em Atos 2.38

O versículo em questão diz: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”. Este versículo é de difícil compreensão e só pode ser respondido à luz da gramática grega e do contexto hermenêutico Bíblico. A palavra grega traduzida como “para” no texto é eis (do grego “εις”) que pode significar muitas coisas sendo ela uma preposição de referência para indicar relação entre duas coisas. Ela contém vários significados, podendo ser entendida, por exemplo, como a causa de alguma coisa, o que seria expresso como: “devido à” ou “resultante de”. Assim, o que Pedro quis dizer foi que as pessoas se arrependessem e que elas deveriam ser batizadas em resultado da remissão de seus pecados. Isso é evidente pelo fato de que o batismo só é ministrado após a conversão e nunca antes. Várias vezes encontramos na Bíblia expressões do tipo: “e muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados” (At 18.8). Perceba a ordem: creram e depois foram batizados. O batismo é a representação exterior do que ocorreu no interior da pessoa. É esse sentido que Pedro emprega em sua frase.

      II.            Saulo em Atos 22.16

O texto diz: “E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele”.

Esse texto é muito citado pelos defensores da doutrina da remissão batismal, mas não ensina que o batismo purifica pecados. O texto está da seguinte forma na Bíblia Católica Edições Paulinas: “E agora, o que estás esperando? Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome!”. O leitor já deve ter percebido que as expressões “recebe o batismo” e “purifica-te dos teus pecados” não apresentam relação entre si, ou seja, são efeitos distintos resultantes do ato registrado no final: “invocando o nome dele”. Explicando melhor, Saulo receberia a purificação de seus pecados pela invocação do nome de Jesus e não pelo batismo. Assim sendo, este texto não ensina que o batismo lava pecados.

Além destes dois, outros textos da Bíblia são usados pelos defensores de tal doutrina, mas como vimos, são textos muito mal interpretados.

O batismo não lava pecados e isto é facilmente compreendido no Novo Testamento. Não é a água que purifica, mas o sangue! Diz a Bíblia: “e levaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.” (Ap 7.14); e em outra parte: “e o sangue de Jesus seu Filho nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7).

Caro leitor, crer que o batismo purifica pecados é irracional. Ora, acaso quem batiza uma vez deixa de pecar para sempre? E se esse alguém pecar depois de ter sido batizado? Vai ser batizado novamente? A Bíblia ensina que há um só batismo (Ef 4.5). Então como se dá o perdão de pecados? Pelo arrependimento e pela confissão! Jesus começa a mensagem evangélica dizendo: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.” (Mt 4.17). Quando o apóstolo Pedro estava no templo, logo depois de curar um paralítico na entrada, disse: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados,” (At 3.19). Da mesma forma, afirma o apóstolo João: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9).
Deus é quem perdoa nossas falhas e transgressões, não pelo batismo, mas pelo quebrantamento do nosso coração, pelo nosso arrependimento, pela confissão de nosso pecado e pelo poder que há no sangue de Jesus.

O Batismo de Crianças

A prática de batizar as crianças é uma tradição imemorial da Igreja. É atestada explicitamente desde o século II. Mas é bem possível que desde o início da pregação apostólica, quando “casas” inteiras receberam o Batismo, também se tenha batizado as crianças.”

Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1252

    A prática de batizar crianças é chamada de Pedobatismo. Foi iniciada no século II e não há nenhum indício de que era praticada pelos apóstolos. Neste mesmo século, o pedobatismo causou a primeira grande desfraternização entre igrejas Cristãs que discordavam acerca de tal prática. Isso prova historicamente que o costume de batizar crianças não foi ensinado e nem praticado pelos apóstolos.

O Catolicismo sugere alguns textos Bíblicos que utilizam a expressão do batismo em “casas inteiras” para justificar esta prática. Abaixo estão listados os versículos em que podemos encontrar uma expressão similar:

“Depois que foi batizada, ela e a sua casa,“ (At 16.15)

foi batizado, ele e todos os seus” (At 16.33)

batizei também a família de Estéfanas” (1Co 1.16)

Ora, estes textos dizem que alguma criança foi batizada? Se lermos todos eles dentro de seus respectivos contextos, poderemos perceber a presença de três características em comum:
  • A Palavra foi pregada a alguém – At 16.14, 16.32 e 1Co 1.17
  • Foi recebida e por isso foram batizados – At 16.14, 16.34
  • Nenhuma criança é mencionada
Além destes, os defensores do pedobatismo ainda citam o texto de Atos 2.39 para tentar aprovar tal prática: “Porque a promessa vos pertence a vós, a vossos filhos”. Uma lida no contexto deste último versículo pode mostrar claramente que Pedro não estava se referindo a crianças, mas sim às futuras gerações de crentes.

Portanto, a Bíblia não dá margem para o pedobatismo. Diante de tal fato, pergunto aos Católicos sinceros em sua fé: por que devemos crer em algo que a Bíblia não ensina?

Os apologistas Católicos ainda citam o pacto de Abraão (a circuncisão, veja em Gênesis capítulo 17), que era feito em crianças, comparando-o com o batismo. Questionam eles: se a circuncisão era feita em crianças, por que não podemos batizar crianças? Ora, a diferença entre circuncisão e o batismo é imensa. A circuncisão era sinal do pacto de Deus com o povo hebreu e prefigurava a Nova Aliança do sangue de Jesus Cristo (leia 1Co 11.25), não tem absolutamente nada a ver com o batismo. Jesus, por exemplo, foi circuncidado quando criança (Lc 2:21), mas só foi batizado quando já era adulto (Lc 3:21). Além disto, a Bíblia não cria nenhum paralelo entre circuncisão e batismo, mostrando que não há nenhuma relação entre eles.

Alguém ainda poderia perguntar: por que os Evangélicos não batizam crianças? Que mal há nisso? Respondo que não há nenhum mal, no entanto, o batismo é uma representação exterior da conversão interior de uma pessoa. Como uma criança que nem mesmo sabe o que é pecado pode se arrepender de seus pecados? Ninguém pode ser obrigado a servir a Deus e muito menos ingressar na fé Cristã de forma involuntária. Para que uma pessoa possa se batizar existem quesitos como o arrependimento, a fé e a consciência de compromisso com a Palavra de Deus. Como uma criança poderia se arrepender de alguma coisa? Como ela poderia ter fé em Deus ou firmar um compromisso com ele sem nem mesmo saber falar?

Por estes motivos e segundo o exemplo Bíblico, nós Evangélicos ministramos o batismo somente a pessoas que alcançaram a maturidade necessária para tomar a decisão de aceitar a Jesus como Senhor e Salvador e ter uma consciência exata do que o batismo representa e de sua importância.

Presas ao poder das trevas

Por nascerem com uma natureza humana decaída e manchada pelo pecado original, também as crianças precisam do novo nascimento no Batismo, a fim de serem libertadas do poder das trevas e serem transferidas para o domínio da liberdade dos filhos de Deus, para a qual todos os homens são chamados.”

Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1250

    Dentre os vários absurdos espalhados pelas várias doutrinas Católicas, eu considero este um dos piores. O Vaticano afirma que crianças e recém-nascidos que ainda não foram batizados estão “presos ao poder das trevas”. Isso é biblicamente absurdo! Nenhuma passagem da Bíblia ensina que as crianças estão presas ao poder das trevas e muito menos que o batismo opera a libertação de tal prisão. Gostaria de perguntar ao caro leitor: onde a Bíblia ensina isso? Vamos analisar dois pontos muito importantes dentro deste tema:
  1. A.      A questão do Pecado Original


Alguém poderia levantar a questão: e o pecado original? Bem, para explicar isso, primeiro temos que entender o que é o pecado original e como ele nos afeta.

O pecado original, assim chamado, é a semente de imperfeição que herdamos de nossos pais. Não é um pecado em si, mas uma natureza decaída e propensa a pecar. Explicando melhor, o pecado original é a herança de uma natureza corruptível manchada pelo pecado que afeta o homem por inteiro: corpo, alma e espírito. A influência do pecado original resulta na moralidade corrupta e não no pecado em si. Desta forma, uma criança que ainda não cometeu pecados pessoais tem um espírito totalmente puro e inocente, ainda que sua natureza herdada seja imperfeita e decaída por causa do pecado original. A Bíblia fala sobre o pecado original em várias passagens como: Rm  5.12-19; Gl 5.19-21; Ef 2.1-3; são só alguns exemplos.

Como podemos ver, o pecado original não prende ninguém ao poder das trevas. A Bíblia ensina: “Não se farão morrer os pais pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada qual morrerá pelo seu próprio pecado” (Dt 24.16); e em outra parte: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho,” (Ez 18.20). Nenhuma pessoa carrega sobre si a culpa pelo pecado de Adão, mas sim a natureza decaída resultante de tal pecado. Assim sendo, nenhuma criança pode estar presa ao poder das trevas em razão do pecado original, pois seu espírito é puro e inocente.
  1. B.      O Testemunho de Jesus Cristo
O Mestre dos mestres nos deixou um testemunho muito claro e evidente sobre a perfeição espiritual dos pequeninos. Jesus, em um dos episódios mais famosos da Bíblia, disse que as criançinhas (que provavelmente não foram batizadas) pertencem ao “reino dos céus” (Mt 19:14). Como pode alguém afirmar que as crianças estão presas ao “poder das trevas” quando Jesus diz que “delas é o reino dos céus”?

Compare a declaração da Igreja Católica com palavras de Jesus em Mateus 18.1-4:

Naquela hora chegaram-se a Jesus os discípulos e perguntaram: Quem é o maior no reino dos céus? Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, quem se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no reino dos céus”.

Veja que Jesus diz que devemos ser como crianças, pois elas são exemplos de humildade e sinceridade para nós. Acaso Jesus falaria desta forma se elas estivessem “presas ao poder das trevas”? Como imitaremos alguém que está “preso ao poder das trevas”?

Vejamos outro caso interessante que está escrito em Mateus 21.15-16:

Vendo, porém, os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que ele fizera, e os meninos que clamavam no templo: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se, e perguntaram-lhe: Ouves o que estes estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e de criancinhas de peito tiraste perfeito louvor?
Jesus responde aos sacerdotes citando o Salmo 8.2 que diz: “Da boca das crianças e dos que mamam tu suscitaste força,”. Caro leitor, como Deus pode suscitar força para um perfeito louvor da boca de alguém que está “preso ao poder das trevas”? Como o ensinamento Católico pode estar de acordo com a Bíblia? Pense nas palavras de Jesus: “Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque de tais é o reino dos céus.” (Mt 19.14).

Conclusão

Neste tópico abordamos o tema do batismo dentro da doutrina Católica. Creio que não restaram dúvidas sobre o significado real do batismo. A doutrina Católica não resiste a um combate com a luz das Escrituras, antes se mostra falha e sem bases. Vimos que o Catolicismo afirma o seguinte sobre o batismo:

  • O batismo é necessário para a salvação
  • Há remissão de pecados através do batismo
  • Sem o pedobatismo, as crianças estão presas ao poder das trevas
O batismo não é necessário para a salvação e nem lava pecados. Somente a fé em Jesus Cristo salva (Jo 3.16; At 16.31; Ef 2.8-9) e somente o sangue de Jesus pode nos purificar de todos os pecados (1Jo 1:7).

O apóstolo Paulo nos fala sobre o significado do batismo:

Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.” (Rm 6.4)

O que Paulo está dizendo é que o batismo representa a nossa morte para o mundo e o nosso ressuscitar para Deus em novidade de vida, não uma libertação do poder das trevas e um perdão de pecados como afirma a Igreja Católica. Desta forma, vemos que os ensinos Católicos sobre o batismo não têm bases Bíblicas e por isso volto a questionar: devemos crer na doutrina batismal Católica?

O Concílio de Trento afirma em sua sétima sessão, parágrafo 859: “Se alguém disser que na Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, não reside a verdadeira doutrina acerca do sacramento do Batismo — seja excomungado”.

Eu creio que a verdadeira doutrina acerca do batismo está na Bíblia, que é a única regra de fé para o Cristão. A Bíblia é “viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Jesus disse que “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mt 24.35). Ele também testificou sobre a veracidade das Escrituras dizendo: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim” (Jo 5.39); e o apóstolo Paulo escrevendo a Timóteo registrou que “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16).

Se o leitor for Católico, pergunto-lhe: a verdadeira doutrina acerca do batismo está contida na Bíblia ou na Igreja Católica? Pense bem nisto.

Perguntas para meditação:

  1. A Bíblia ensina que o batismo é necessário para a salvação?
  2. O que lava pecados: o batismo ou o sangue de Jesus?
  3. O pecado original pode ser lavado pelo batismo? O que a Bíblia diz à respeito?
  4. Por que motivo devemos crer no pedobatismo? Onde a Bíblia ensina tal coisa?
  5.  As crianças que não foram batizadas estão “presas ao poder das trevas”? O que Jesus diz à respeito disto em Mateus 19.14?
  6. A Bíblia se revela completa e acabada (veja Ap 22.18-19). Devemos crer em algo que a Bíblia não nos ensina?
  7. A doutrina verdadeira do batismo está realmente na Igreja Católica?
Extraído do livro “O Catolicismo Romano e a Bíblia”, Rafael Nogueira

A relação entre os vivos e os mortos na reza

 Porque os bem-aventurados, estando mais ìntimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade, enobrecem o culto que ela presta a Deus na terra, e contribuem de muitas maneiras para a sua mais ampla edificação em Cristo (cfr. 1 Cor. 12, 12-27).”

 Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, parágrafo 49

    Citando o texto de 1 Co 12, a cúria romana tenta ensinar, baseando-se nas tarefas diferenciadas dos membros do corpo de Cristo, que os que morreram continuam a exercer alguma tarefa junto à Igreja.  A Bíblia não ensina em lugar nenhum que os que morreram “contribuem de muitas maneiras” para a edificação dos que estão na terra. Certamente não foi lendo a Bíblia que o Vaticano aprendeu isso. É fato que o Catolicismo rege uma união entre os crentes vivos na terra e os que estão com Cristo, porém ignoram as leis e preceitos que Deus estabeleceu sobre a morte.
A Bíblia diz que os que morreram não têm “daí em diante parte para sempre em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.” (Ec 9:6), isto é, eles não têm mais nada a ver com o que se faz na terra. Veja como a Bíblia Ave Maria verte o texto: “não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol.”. Este é um princípio de Deus, portanto, imutável. Os mortos não tem nada a ver com o que se faz “debaixo do sol” (isto é, nesta vida). Como pode a Igreja Católica ensinar que eles têm parte com o que se faz neste mundo, quando a Bíblia afirma que não? Há inúmeros casos de intercessão na Bíblia, mas somente de pessoas que estavam “debaixo do sol”, ou seja, vivos, nunca de pessoas que já morreram.
Entretanto, em um esforço para tentar provar seu ponto de vista, os apologistas Católicos citam dois textos para tentarem provar que os mortos podem contribuir para a edificação dos vivos. Vejamos:
  1. A.     Jeremias 15:1
Um texto frequentemente citado por eles para apoiar a intercessão dos Santos é Jeremias 15:1 que diz:
Disse-me, porém, o Senhor: Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, não poderia estar a minha alma com este povo”.
Moisés e Samuel já estavam mortos há muito tempo quando Jeremias escreveu o verso em análise. Sendo assim, os apologistas Católicos argumentam dizendo que quando Deus fala que nem mesmo se eles – Moisés e Samuel – se pusessem diante dele (intercedendo pelos israelitas) Deus se compadeceria de Israel; desta forma, os apologistas Católicos afirmam que haveria uma possibilidade de haver intercessão após a morte, pois Moisés e Samuel já haviam morrido.
Não é necessário ir muito longe para perceber que esse argumento é fraudulento e muito fraco. Onde o versículo diz que Deus se referia ao tempo do profeta Jeremias? Deus estava se referindo a Moisés e Samuel enquanto estavam vivos. Mesmo que estivessem vivos e intercedessem por Israel, Deus não voltaria atrás. Onde os apologistas encontraram a intercessão dos mortos neste versículo?
No contexto, Deus está se respondendo à intercessão feita pelo profeta Jeremias (Jr 14:19-22). Em resposta à oração do profeta, Deus diz que mesmo que Moisés e Samuel – que já tinham tido êxito em intercessões no passado (confira Êx 32:11-14, 31-35 e 1Sm 7:5-9) – estivessem no lugar de Jeremias (intercedendo por Israel naquele momento), Deus não voltaria atrás em sua decisão.
Vê-se que os apologistas Católicos usam de um argumento fraco, sem contexto e totalmente desprovido de alguma verdade.
  1. B.     Apocalipse 6:9-11
Neste texto, após a abertura do quinto selo, surgem as almas dos que foram mortos por causa de sua fé em Cristo (mártires) e eles clamavam por Justiça. Diante deste texto, os apologistas questionam: Se estes santos oram por si mesmos, o que impede que eles orem por nós?
Como já vimos, os que morreram não têm mais nada a ver com a obra que se faz na terra (Ec 9:6) e assim não podem intervir nos assuntos terrestres. Ao usarem o texto de Ap 6:9, os apologistas Católicos ignoram o contexto do livro do Apocalipse, pois estes mortos não são santos (como nos moldes Católicos), pois eram recém chegados da Grande Tribulação (veja Ap 7:14), e não estavam orando ou intercedendo, mas pedindo o cumprimento da promessa de Jesus: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos. ” (leia as palavras de Jesus em Mt 5:6,11,12). Assim sendo, eles não estavam orando ou intercedendo, mas sim pedindo o cumprimento de uma promessa que nos foi feita por Jesus Cristo.
Podemos concluir dizendo que os que morreram, não tem mais parte com os vivos, embora façam parte da Igreja de Cristo e ainda sejam herdeiros das mesmas promessas que os vivos. No entanto, seu estado os impedem de agir em prol dos vivos (Fp 1:21-24), mas apenas aguardam a ressurreição para a vida eterna (leia Ap 6:11).

Extraído do livro “O Catolicismo e a Bíblia” de Rafael Nogueira

sexta-feira, 27 de março de 2015

O dogma da Imaculada Conceição de Maria.



I. DEFINIÇÃO E EXPLICAÇÃO

O Papa Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, em 8 de dezembro de 1854, declarou como dogma da Igreja e artigo de fé o seguinte: “Ë de Deus revelada a doutrina que sustenta que a bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio do Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, o Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, e dessa maneira deve ser onda firme e constantemente por todos os fiéis.”

Os apologistas do dogma não dizem que Maria foi milagrosamente concebida, sendo que ela teve seus país naturais. São Joaquim e Santa Ana afirmam, sim, que ela nasceu sem pecado original, entendendo-se que este consiste na privação da graça sobrenatural imerecida, graça que Adão e Eva tiveram a principio, mas que perderam por sua desobediência.

O pecado original consiste, segundo a doutrina católica, em que todos os seres humanos, por descendermos de nossos pais Adão e Eva, nascemos privados dessa graça santificante, e, dessa maneira, é congênita em nós a tendência para o mal. Maria participou, no entanto, de algumas das consequências do pecado de Adão; esteve incluída na sentença adâmica, incorreu na dúvida, como todos os demais, e não esteve isenta da morte; mas foi ela redimida por antecipação, em vista dos feitos de seu próprio Filho e pela abundância da bondade de Deus.

Convém observar que, com a promulgação deste dogma papal, o primeiro em 18 séculos e meio, Pio IX pôs termo a uma controvérsia que havia abrangido várias centúrias e que implicava numa ameaça de divisão nas filas romanistas. A decisão do Papa adotada por ele e perante ele chegou a ser por isso mesmo uma medida prática e oportuna e deixou bem clara a consolidação das pretensões do papado, de absoluta autoridade sobre os Concílios Gerais e sobre a Igreja toda. Apenas 16 anos depois, este mesmo Papa haveria de decretar, no Concilio Vaticano I, o dogma da infalibilidade papal.

II. HISTÓRIA

No catolicismo, culto à Imaculada Conceição de Maria está muito difundido. A dita festa começou a celebrar-se já no século XII, muito antes da proclamação do dogma. Uma lenda atribui sua origem à ordem dada por um varão resplandecente, o qual, havendo aparecido a um abade inglês, de nome Elpino, que se achava em perigo de naufragar no marcom os seus companheiros,”… disse-lhes que prometessem a Deus guardar cada ano a festa da Conceição de nossa Senhora, e de exortar a outros que aguardassem ,e que desta maneira sairiam daquele perigo e chegariam ao porto desejado”. (1)

Em 1140 a festa da Imaculada Conceição foi estabelecida pela primeira vez por alguns cônegos de Lyon, França, os quais foram duramente censurados pelo famoso São Bernardo como iniciadores de tal novidade. A este respeito, a Enciclopédia de La Religion Católica diz: “Ao introduzir-se a festa em Lyon soou a voz da oposição nada menos que de São Bernardo, por outra parte tão grande Mariólogo; e sua autoridade atraiu outros ao seu parecer.” (2)

Na celebração desta festa, os católicos aplicam a Maria certas expressões de Cântico dos Cânticos, como as seguintes: “Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha”; “Jardim fechado é minha irmã, minha noiva, sim, jardim fechado, fonte selada”; “Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada; ela é a única. .. a escolhida” (Cant.4:7, 12; 6:9).

Durante onze séculos a crença nesta doutrina foi desconhecida na igreja cristã. Encontramos o primeiro vestígio dela nos meados do século XII, com a instituição da festa, à qual nos referimos anteriormente. Apesar de se celebrar na Igreja Oriental desde o ano 880 uma festa da Conceição em cada 9 de dezembro, esta, no entanto, era só para celebrar o caráter milagroso de Maria, já que sua mãe Ana era estéril (segundo uma lenda apócrifa). A idéia da Imaculada Conceição se foi estendendo, mas de igual modo cresceu a oposição, a ponto de desenvolver-se uma acesa e ampla controvérsia, na qual apaixonadamente intervieram escolas de pensamento, ordens religiosas, igrejas nacionais e proeminentes líderes. Principais contendentes na batalha foram os franciscanos, que, com seu mestre Juan Duns Escotus, defendiam a Imaculada Conceição, enquanto os dominicanos, com Tomás de Aquino os encabeçando, a negavam.

O Concílio de Trento, que decretou como artigos de fé muitas das superstições medievais, se absteve, no entanto, de promulgar este novo dogma, claro indício de que, à altura do ano 1545, a tal crença não contava ainda com o apoio universal. Foi necessário que transcorressem dezoito séculos e meio para que a Imaculada Conceição ingressasse oficialmente no credo católico romano. Com efeito, o Papa Pio IX publicou em 2 de fevereiro de 1849 uma Encíclica, a fim de que todos os bispos expressassem sua opinião a respeito, e, ainda que muitos deles se pronunciassem contra. Posteriormente o Papa declarou como novo dogma da Igreja Católica Romana, na presença de 54 cardeais e 140 bispos, a Imaculada Conceição de Maria.

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(1) P. Pedro de Ribadeneyra, Vida de ia Gloriosa Virgen Maria, p. 81.

(2) Tomo II, art. “Conceição Imaculada da Santissima Virgem”.

III. DEFESA ROMANISTA


Revisando a linha de argumentos invocados em defesa deste dogma, salta à vista que são três os setores em que poderiam ser classificados: tradição, Biblia e filosofia. Vejamo-los nessa ordem.

1. Tradição Patrística


Quanto a este ponto, se alega que os primeiros Pais expressaram–se em termos altamente elogiosos sobre a pureza de Maria, do que resulta incongruente o fato de ela ter sido manchada com o pecado original. Maria é mencionada como “a segunda Eva – que, por sua descendência, chegou a ser a causa da sua própria morte e da raça humana – pois também Maria, levando em seu seio o Homem predestinado, e sendo, no entanto, uma virgem, por sua obediência, chegou a ser, tanto para ela mesma como para todo o gênero humano, a causa de salvação.” (1)

Santo Efrém, um dos Pais sírios do século IV, dedica uma prece a Maria, na qual a invoca como “Virgem, Senhora, Mãe de Deus… Santíssima e benigníssima Senhora”, que foi “…eleita como a mais sublime de todas gerações da terra”. E acrescenta: “Bem-aventurada és por todos os séculos, gratíssima a Deus, mais resplandescente que os querubins, e mais gloriosa que os serafins.” (2)

Certo é que há outros Pais e doutores da Igreja que ponderam a dignidade, a beleza e a graça de Maria, mas ainda que se pudesse entender que alguns desses elogios favorecem implicitamente a crença na Imaculada Conceição, não se pode, no entanto, afirmar que o digam.

2. Argumento Bíblico

Como base bíblica deste dogma citam-se as palavras do Proto-evangelho, a saber, as ditas por Jeová Deus à serpente em Gênesis 3:15, e as da saudação angélica em Lucas 1:28. Nestas passagens, no entanto, o argumento não está explícito, senão que simplesmente se deduz.

Na elaboração de sua exegese, os defensores da Imaculada se valem da Versão Latina do Padre Jerônimo, onde se diz que a mulher esmagará a cabeça da serpente. Logo, seu raciocínio é que, se neste versículo se faz referência à mulher, que não é outra senão Maria, a promessa de que ela vencerá o diabo quer dizer que o pecado não se assenhoreará dela nem sequer por um instante, e, portanto, ela foi preservada de toda mancha desde o momento de sua concepção.

Quanto à passagem de Lucas, a Vulgata traduz as palavras do anjo Gabriel a Maria assim: “Ave Maria, gratia plena…”, isto é, “cheia de graça”, do que se estabelece que, havendo Maria sido cheia de graça, era impossível que ela alguma vez houvesse cometido pecado, resultando disso sua imaculada Conceição.

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(1) Against Heresles, til, 22:4; Translations of the Writings of the Fathers, p. 36, Ed. pelo Rev. Alexander Aoberts e James Donaldson, Vol. V, Edinburg: T. and T. Clark, 38, George Street, 1868.

(2) Los Santos Padres, Edições Desclée, De Brouwer, Buenos Aires, 1946, Tomo II, p. 448.

3. Razões de Conveniência

Segundo este ponto, era muito conveniente que a mãe do Senhor fosse preservada do pecado original, e desta conveniência se deduz que assim sucedeu. Se argumentam como razões as seguintes:

1) Maria foi a filha primogênita de Deus. A fim de substanciar esta asseveração, os teólogos do romanismo aplicam a Maria o que a sabedoria personificada diz de si mesma. Por exemplo: “Eu saí da boca do Altíssimo, a primogênita antes de todas as criaturas” (Eclesiástico 24:5). “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde o principio, antes que criasse coisa alguma” (Prov. 8:22, versão católica).

2) O Pai Eterno a destinou para que fosse a reparadora do mundo e a medianeira de paz entre Deus e os homens.

3) Maria havia sido destinada por Deus para ser a mãe de seu Filho unigênito.

IV. REFUTAÇÃO EVANGÉLICA

1. Precisa de uma Consistente Tradição Eclesiástica

O fio da tradição é realmente pouco resistente para sustentar o tão grande peso deste dogma. O fato é que os Pais primitivos da Igreja não creram na Imaculada Conceição nem dela falaram. Os testemunhos citados a favor desta crença (lrineu, Santo Efrém e Santo Agostinho) se poderia dizer que a apóiam, só por contradição, e ainda isto é duvidoso. A evidência é clara de que os principais Pais não creram na impecabilidade de Maria.

Juan Duns Escoto (1265-1308), o mais hábil dialético de todos os escolásticos e opositor teológico de Tomás de Aquino, é conhecido como defensor da tese concepcionista; no entanto, o Dicionário Católico em inglês A Catholic Dictionary, William E. Addis e Thomas Arnold diz o seguinte: “Juan Duns Escoto dá sua própria opinião a favor da imaculada conceição com uma tal timidez, que claramente revela seu conhecimento de que a opinião geral estava do outro lado. Depois de sustentar que Deus poderia, se quisesse, haver isentado a bendita Virgem do pecado original, por outro lado, poderia ter permitido a ela permanecer debaixo dele por um tempo e então havê-la purificado. Acrescenta ele (Juan Escoto) que “Deus sabe” qual destas duas possíveis maneiras foi realmente tomada; “…mas se não é contrário à autoridade da Igreja ou dos santos, parece recomendável (probabile) atribuir aquilo que é mais excelente a Maria.”

No ponto número três do artigo em referência o autor do mesmo acrescenta: “Petavius – justamente, segundo cremos – repudia muitas passagens dos Pais, que citamos em apoio da doutrina. Ele faz notar que, se os Pais falam de Maria como “sem mancha”, “incorrupta”, “imaculada”, de nenhuma maneira se entende que eles creram que ela foi imaculadamente concebida.”

A amarga e odiosa controvérsia entre tomistas e escotistas sobre o assunto da Imaculada Conceição, além de constituir um espetáculo pouco edificante no seio da Igreja, é uma prova mais do que irregular da tradição invocada.

A. Rejeitada por Pais e Doutores da Igreja

São muitos os testemunhos que se acham nos escritos dos Pais e doutores que, por um lado, corroboram a impecabilidade de Cristo e, por outro, admitem a participação que Maria teve, igualmente com todos os homens, no pecado original da raça humana. Desta maneira, o tão apetecido “consentimento unânime dos Pais” se levanta antes contra a idéia de imaculada conceição que a favor dela. Citamos os mais importantes.

Eusébio de Cesaréia (265-340): “Ninguém está isento da mancha do pecado original, nem mesmo a mãe do Redentor do mundo. Só Jesus achou-se isento da lei do pecado, mesmo tendo nascido de uma mulher sujeita ao pecado.” (1)

Santo Ambrósio, Doutor da Igreja e Bispo de Milão (século IV), comentando Salmos 118: “Jesus foi o único a quem os laços do pecado não venceram; nenhuma criatura concebida pelo contato do homem e da mulher foi isenta do pecado original; só foi isento Aquele que foi concebido sem esse contato e de uma virgem, por obra do Espírito Santo.” (2)
Santo Agostinho, Doutor da Igreja (354-430), comentando Salmos 34:3, diz: “Maria, filha de Adão, morreu por causa do pecado; e a carne do Senhor, nascida de Maria, morreu para apagar o pecado.” (3)

(4) Os Escolásticos

Transcrevemos integralmente duas citações de obras católicas romanas: “Em certo estado de desenvolvimento, a questão foi estudada pelos escolásticos e, coisa rara, quase todos creram que a doutrina da imaculada não estava em harmonia com a universidade do pecado original e da redenção. Sto. Anselmo, Sto. Alberto, Pedro Lombardo, Alexandre de Hales, São Boaventura, Santo Alberto Magno e São Tomás, ainda que ternamente devotos da Mãe de Deus e prontos a defender seus muitos privilégios, contudo, ensinaram que havia sido concebida em pecado original.” “Entretanto, ainda que os escolásticos mais conspícuos antes do século XIV se opusessem terminantemente à Imaculada Conceição, não faltaram outros, de menos fama, que com igual resolução defenderam esta prerrogativa da Virgem por todos os meios que estavam ao seu alcance.” (4)

“No século XIII, a época da escolástica, vem ao nosso encontro o fato surpreendente de que a maioria dos grandes teólogos se declara bem explicitamente contra a Conceição Imaculada. Da mesma maneira Alexandre de Hales, o próprio São Tomás nas passagens autênticas, Sto. Alberto Magno, São Boaventura, Juan de la Rochelle, Pedro de Tarentasia, Henrique de Gante, Egidio, Romano, etc.” (5)

a) Sto. Anselmo, Doutor da Igreja, Arcebispo de Canterbury (1033-1109) disse a respeito:

“Mesmo sendo Imaculada a Conceição de Cristo, não obstante a mesma virgem, da qual ele nasceu, foi concebida na Iniqüidade e nasceu com o pecado original, porque ela pecou em Adão, assim como por ele todos pecaram.” 1

b) São Bernardo (1140): “Só o Senhor Jesus Cristo foi concebido do Espírito Santo, porque era o único santo antes da conceição; com sua exceção, se aplica a todos os nascidos de Adão o que Alguém confessou humilde e verazmente de si: Eis que eu nasci em pecado, e em pecado me concebeu minha mãe.” 2

c) Boaventura, apesar de ser o guia dos teólogos franciscanos, escreveu o testemunho de que “todos os santos que fizeram menção deste assunto com uma só voz asseveraram que a bendita virgem foi concebida em pecado original”.

d) São Tomás de Aquino (século XIII). Este célebre Doutor da Igreja, o mais renomado dos teólogos católicos, foi o paladim dominicano na controvérsia contra a Imaculada Conceição. Em sua famosa obra Suma Teológica, parte III, pergunta XXVII, diz: “Santificação da Bem Aventurada Virgem Maria”, art. II. “A bem Aventurada Virgem foi santificada antes de receber vida?” Respondemos que a santificação da bem-aventurada Virgem não pode entender-se antes de receber a vida…se a bem-aventurada Virgem houvesse sido santificada de qualquer modo antes de receber a vida, nunca teria incorrido na mancha do pecado original; e, portanto, não teria necessitado da redenção e da salvação, que é por Cristo, de quem se diz: …porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mat. 1.21).

Mas é inconveniente que Cristo não seja o salvador de Todos os homens como se diz (I Tm. 4.10). Logo, segue-se que a santificação da bem-aventurada Virgem nunca houvesse sido contagiada do pecado original, isto derrocaria a dignidade de Cristo, que não necessitou ser salvo, como salvador universal, a maior pureza seria a da bem-aventurada Virgem: porque Cristo de maneira alguma contraiu pecado original senão que foi santo em sua mesma conceição segundo o texto (Luc. 1.35)…ao passo que a bem-aventurada Virgem contraiu o pecado original, mas foi purificada dele antes que saísse do seio (materno).”

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(1) Teófilo Gay, Dlcclonârlo de Controversia, Junta Bautista de Publicaciones, Buenos Aires, p. 423.

(2) lbid., p. 423

(3) Santo Agostinho, Enarr. em Salmos 34:3. Rev. Ricardo Federico Littledate,
Razones Sencillas contra los Errares Y Ias Innovaciones dei Romanismo, p. 16.

(4) Juan Rosanas, S.1. Historia de los Dogmas, iii, Ed. cultural, Buenos Aires, 1945, pp. 173 e 174.

(5) Enciciopedia de ia Reilgión Católica, Art. “Concepciõn lmmaculada de lá Santissima Virgen”.

B) Rejeitada por vários papas 

(1) leão I (440-461) diz: “Assim como nosso Senhor não encontrou a ninguém isento de pecado, assim também veio para o resgate de todos” 3 Se fosse certa a imaculada conceição de Maria, esta afirmação papal seria falsa.

(2) Gregório, o Grande, cuja sabedoria todos reconhecem, comentando a passagem de Já 14:4, expressa que Jesus Cristo é o único que não foi concebido de sangue impuro e o único também que foi verdadeiramente puro em sua carne. Não faz menção de Maria.

(3) lnocêncio III diz: “Eva foi formada sem culpa, e engendrou na culpa; Maria foi formada na culpa, e engendrou sem a cuIpa.”1

2. Necessita de uma Base Bíblica

Apesar de a fórmula dogmática declarar que esta doutrina foi revelada por Deus, o certo é que nas páginas das Sagradas Escrituras não há nem a mais leve insinuação de que a mãe do Senhor houvesse sido concebida imaculadamente. O testemunho positivo da Bíblia faz, sim, impossível a afirmação deste dogma.

a. Nos Evangelhos


Uma leitura cuidadosa das 23 passagens do Novo Testamento que direta ou indiretamente aludem a Maria nos permitirá ver que apesar de, nos Evangelhos, a posição dela não ser em alto grau especial ou proeminente, sua distinção, no entanto, se faz ostensiva em seu caráter humilde e piedoso. Sua pessoa nos está apresentada dentro de um limite impressionantemente humano. Ela é mãe solicita, esposa fiel e uma israelita temente a Deus. Os relatos evangélicos não a rodeiam de adornos artificiosos; não lhe rendem homenagem desnecessária nem a recomendam como salvadora ou milagreira. Seu maior favor recebido foi o de haver sido escolhida do Senhor para abrigar em seu seio virginal a forma humana do Verbo eterno; seu maior gozo foi haver-se submetido voluntariamente aos desígnios misteriosos de Deus; e sua maior glória foi haver crido em seu próprio Filho Jesus como o Salvador de sua alma. Se ela não cometeu pecado durante sua vida terrena, é de todo ponto de vista incompreensível o silêncio absoluto que sobre tal coisa guardam os Evangelhos. Por que no caso de Jesus as Escrituras são claras com respeito a sua perfeição moral, mas no caso de sua mãe guarda silêncio? A razão é óbvia.
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(1) ibid., p. 425.

b. Na doutrina de que todos os homens são pecadores

A Bíblia é igualmente clara em mostrar a doutrina da universalidade do pecado. Adão, o progenitor do gênero humano, pecou, e pelas leis da herança ele transmitiu a todos os seus descendentes a natureza pecaminosa e as conseqüências nefastas da transgressão. “Eis que eu nasci em iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5). “Pois não há homem justo sobre aterra, que faça o bem, e nunca peque” (Ecl. 7:20). “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rom. 3:23; 5:12).

Nas passagens citadas não se indica a isenção de Maria; logo, ela, como descendente de Adão, participou não somente das conseqüências da queda, senão do pecado original mesmo. As palavras de Maria, em seu cântico em Lucas 1:46-55, confirmam esta tese quando ela exclama: “A minha alma engrandece ao Senhor; e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador.”
Por que Maria chamou a Deus seu Salvador? Porque ela, da mesma maneira que todos os homens, necessitou salvar-se e obter a vida eterna pelo arrependimento e a fé. Em Mateus 1:21 lemos a mensagem dada pelo anjo a José “…ela dará à luz um filho, a quem chamarás JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.” Segundo isto, e sendo que Jesus era Deus mesmo velado em carne, o próprio filho de Maria foi seu Salvador, não no sentido de que a houvesse preservado da mancha do pecado original e de todo pecado atual, pois que não se trata disto, senão redimindo-a, igual a todos, da condenação eterna.

Estas notas, no entanto, não querem dizer que a Virgem Maria tenha sido uma mulher perversa e desprezível; de todos os pontos de vista, foi ela uma senhorita honesta, uma dama religiosa e santa. Bem podemos tomá-la como exemplo de virtudes e dar graças a Deus pela inspiração que sua vida produz em nós. Não se pode, porém, passar deste limite, sem correr o risco de cair no meramente especulativo e, o que é ainda pior, em terreno inseguro e falso.

3. Necessita de Suficiente Base Racional
Ao ler as obras literárias dedicadas a exaltar Maria, logo se percebe que é neste ponto de supostas razões lógicas que os defensores do dogma da Imaculada fazem apoiar com mais força e mais confiança sua tese concepcionista. Esgrimem com habilidade o argumento da conveniência, isto é, que pelo fato de que Maria foi a escolhida para ser a mãe do Senhor, ou de Deus, como prefere dizê-lo a fraseologia romanista, era então muito conveniente sua imaculada conceição; e ainda as outras crenças sobre Maria, como a da Assunção se fazem depender desta mesma conveniência ou suposição.

É fácil ver, no entanto, que esta asseveração, bem intencionada, certamente, não deixa de ser um simples desejo ou uma conjectura piedosa. O fato de uma coisa parecer-nos mui conveniente ou desejável não prova desde logo que o seja. Seria conveniente que ninguém adoecesse, mas a realidade é outra. Se deduz também que como Deus é Onipotente, foi fácil para ele realizar o milagre da imaculada conceição de Maria. A este respeito cita-se o famoso silogismo PotuIt DecuIt Cesit (“Pôde e quis, logo, o fez”). Não se nega, está claro, que para Deus não há nada impossível, mas tampouco isto prova que o dogma da Imaculada Conceição descanse sobre uma base real. Deus pode haver criado todas as coisas em um segundo de tempo, mas isto não é uma evidência de que assim foi. Resulta, por conseguinte, extremamente perigoso o definir uma doutrina sobre o inseguro argumento da conveniência.

Mas ainda existe algo mais: de um ponto de vista racional, pode-se considerar como improvável a imaculada conceição de Maria, devido às seguintes razões:

a. Porque teria que haver uma conceição Imaculada em cadeia
Se para Jesus ser imaculado fosse necessário que sua mãe também o houvesse sido, logicamente entende-se que as mesmas razões existem para que houvessem sido imaculadas a mãe de Maria e sua avó, e assim sucessivamente, até chegar a Eva. Esta é uma conseqüência teórica que, ainda que repugne ao bom sentido, temos que admitir, se aceitamos como válidas as suposições apologéticas dos concepcionistas marianos.

b. Porque a santidade de Jesus não dependo de sua relação com sua mãe


Jesus foi santo, mesmo não o tendo sido sua mãe, pois ele não recebeu sua santidade por herança ou associação. Ele foi sem mácula alguma, em primeiro lugar, porque ele não foi concebido de varão, senão por obra do Espírito Santo; e, em terceiro lugar, porque era Deus encarnado, apesar de nunca ter usado de sua deidade para ganhar a vitória, vencendo apenas como homem. Não se trata de uma santidade a ele concedida em forma mecânica e milagrosa; a santidade do Senhor foi o ambiente natural de uma vida que, além de sua origem divina, se submeteu totalmente à influência e direção do Espírito de Deus.


c. Porque se desumaniza a Maria

Um derivado da tese concepcionista é que, ao pretender que Maria tenha sido imaculada em sua conceição e necessariamente em sua vida também, quer dizer que ela nunca chegou a ser, propriamente falando, uma criatura humana nem viveu uma verdadeira vida humana. Este dogma erradica a Virgem da família humana, a reduz a um quase bosquejo de personalidade humana e faz de sua vida um fantasma. A despoja, realmente, do fundamento de sua verdadeira grandeza, qual seja, a de que, sendo ela uma criatura como todas, embelezou, no entanto, seu caráter e imortalizou seu nome com as virtudes de sua abnegação, de sua piedade e de sua obediência. Os Evangelhos nos apresentam uma Maria humana, santa e humilde por esforço próprio, o que reclama admiração e respeito, e não uma Maria divinizada e artificialmente sem pecado.

V. EXEGESE DEFEITUOSA


Interpretação de Gênesis 3:15 e Lucas 1:28

Foi dito anteriormente que estas duas passagens são citadas pelos teólogos católicos como o baluarte bíblico a favor da Imaculada Conceição, apesar de admitirem que o argumento o é por implicação.

Esta tese necessita de base em duas coisas: na tradução de ambas as referências bíblicas e nas afirmações que dela derivam. Este erro de tradução aparece primeiro na Vulgata Latina, da qual, até bem poucos anos, se faziam todas as versões católicas da Bíblia.

a) Gênesis 3.15


A versão em espanhol de Torres Amat traduz Gênesis 3:15 assim: “Eu porei inimizade entre ti e a mulher, e entre tua semente e a sua semente; esta te ferirá na cabeça, e tu lhe ferirás no calcanhar.” Quem esmagará a cabeça da serpente, isto é, do diabo? Tanto a tradução como a exegese católicas dão a entender que a promessa de vitória sobre o inimigo das almas aqui é dada à mulher, que não é outra senão a Virgem Maria. Em nota de rodapé desta passagem, Torres Amat explica: “ou então: Quebrantará tua cabeça a mulher, que, cheia de graça, dará à luz o Filho de Deus.”

O pronome “ela”, nesta passagem, é impossível que possa referir-se a uma mulher, sendo que no original hebraico é “ele”, pronome demonstrativo no gênero masculino, e, portanto, o original hebraico requer a tradução Ipsum e não Ipsa como traduz a Vulgata. Não se refere, pois, à mulher, e, sim, à sua semente, que é Cristo. As versões protestantes da Bíblia traduzem corretamente este versículo. Por exemplo, a Revisão de 1960 diz: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” È justo admitir, no entanto, que as recentes versões católicas da Bíblia, feitas pela primeira vez diretamente das línguas originais, corrigiram o erro da tradução apontada. Nácar-Colunga, por exemplo, traduz assim: “Ponho perpétua inimizade entre ti e a mulher, e entre tua linhagem e a sua: este te esmagará a cabeça, e tu morder-lhe-ás o calcanhar.”

A análise lingüística e gramatical de Gênesis 3:15 como sua exegese dentro do contexto bíblico, nos leva, por conseguinte, a uma clara e lógica conclusão: que é a semente da mulher (Jesus Cristo), e não, a mulher mesma (neste caso, Maria, acerca da qual evidentemente é uma referência profética) quem esmagaria, isto é, que derrotaria completamente o diabo. Portanto, Jesus Cristo fez precisamente isso, não só através de sua vida sem mácula, senão e especialmente por meio de sua morte vicária na cruz, o que é ensinamento nítido do Novo Testamento. Hebreus 2:14: “Portanto, visto como os filhos são participantes comuns de carne e sangue, também ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte derrotasse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o Diabo.” 1 João 3:8: “Quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca desde o principio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo.” Em contrário, não há uma só passagem no Novo Testamento em que se aplique a Maria o cumprimento da vitória completa sobre Satanás, anunciada por Jeová Deus em Gênesis 3:15.

b) Lucas 1.28


As versões católicas da Bíblia traduzem a passagem de Lucas 1:28 assim: “Entrando, pois, o anjo onde esta estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça! O Senhor é contigo!” (Nácar-Colunga). Novamente temos aqui um erro de tradução, com o qual se quer justificar todas as chamadas “glórias de Maria”. A frase “cheia de graça” não é exatamente o que diz o grego original do Novo Testamento, senão que se trata do particípio perfeito do verbo xaritoo, que significa “favorecida”, “ser o objeto de um gracioso convite” (literalmente, agraciada). A Revisão de 1960 traduz corretamente: “E entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve agraciada; o Senhor é contigo.” A mesma nota que aparece no rodapé da página em Nácar-Colunga é uma cândida profissão do verdadeiro sentido da frase em grego, de modo que a tradução da dita frase no texto aludido resulta tendenciosa. “Cheia de graça” é a tradução que dão as antigas versões ao particípio “agraciada”, “gratificada” em sumo grau. O anjo emprega este particípio à maneira de nome próprio, o que aumenta a força de seu significado. A piedade e a teologia cristãs afastaram daqui todas as exaltações de Maria. A análise lingüística superficial demonstra, por conseguinte, que não se trata da concessão de alguma virtude especial para não pecar, senão simplesmente de um favor, de uma graça imerecida, qual é a de ser a mãe do Salvador.

Em Efésios 1:6 aparece este mesmo verbo no sentido que apontamos. E em Atos 6:8 se emprega a frase “cheia de graça”, pois diz:

“Ora, Estêvão, cheio de graça e poder (‘cheio de graça e de virtude’, Nácar-Colunga), fazia grandes prodígios e sinais entre opovo.” De modo que, se da frase (ainda que exagerada) de Gratia plena quer-se deduzir tantos privilégios, deve-se fazer de Estêvão e todos os fiéis participes iguais dos mesmos (Atos 4:33; II Cor. 9:8).

Também, ao anunciar o anjo Gabriel a Zacarias a concepção de João, o Batista, o precursor de Jesus, empregou palavras de que, seguindo o método de interpretação romanista, teríamos que deduzir que João, o Batista, foi sem pecado mesmo desde sua concepção, sendo que o anjo disse: “Não beberá vinho, nem bebida forte; e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe” (Luc. 1:15, Torres Amat). Assim sendo, sabemos que não é tal o caso aqui, tampouco o é, e com menos base escritural ainda, na saudação do anjo a Maria.

VI. A IMACULADA CONCEIÇÃO E O CONCÍLIO VATICANO II

No “Esquema sobre a Constituição Dogmática da Igreja”, no Capitulo VIII, os Pais conciliares trataram sobre o tema “O Papel da Bendita Virgem Maria, Mãe de Deus, no Ministério de Cristo e da Igreja”. Propriamente falando, a discussão não girou em torno do dogma da Imaculada Conceição. No entanto, a redação do capitulo não deixa margem a dúvidas de que o Concílio confirmou o dogma Mariano. Afirmações, como as seguintes, o demonstram: “Devido a este dom de graça sublime, ela sobrepassa a todas as demais criaturas, tanto no céu como na terra.” (1) “Não é de estranhar, então, que o uso prevaleça entre os santos Padres, pelo qual eles chamaram a mãe de Deus inteiramente santa e livre de toda mancha de pecado, formada pelo Espírito Santo em uma classe de nova substância e nova criatura.”(2) “Adornada desde o primeiro instante de sua conceição com os esplendores de uma santidade inteiramente única, a Virgem de Nazaré é, pelo mandato de Deus, saudada por um anjo mensageiro como ‘cheia de graça’.” (3) “Corretamente, portanto, os santos Padres a vêem como usada por Deus não meramente em uma maneira passiva, senão como cooperando na obra da salvação humana através de fé e obediência livres.” (4) “Esta união da Mãe com o Filho na obra da salvação se manifestou desde o tempo da concepção virginal de Cristo até sua morte.” (5) “Finalmente, preservada e livre de toda culpa de pecado original, a Virgem Imaculada foi levada em corpo e alma à glória celestial, ao terminar sua peregrinação terrenal.” (6)

Realmente nos surpreende esta linguagem tão desautorizada e leviana. Isto quer dizer, então, que Roma não cedeu nada no que concerne à Mariologia. As posições continuam iguais.
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(1, 2, 3, 4, 5, 6) Walter M. Abbott, S.J.: The Documenta of Vaticano II – Guild Press:

CONCLUSÃO


Concluímos, pois, que o dogma da Imaculada Conceição de Maria é insustentável porque ele não tem nenhum valor prático para a teologia cristã ou para a salvação do homem; e porque, em lugar de este dogma nos aproximar da fonte pura do evangelho e da suprema pessoa de Jesus Cristo, antes nos afasta, para fazer-nos incorrer no pecado de “honrar à criatura, antes que ao Criador, o qual é bendito pelos séculos”.