I. DEFINIÇÃO E EXPLICAÇÃO
O Papa Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, em 8 de dezembro de 1854, declarou
como dogma da Igreja e artigo de fé o seguinte: “Ë de Deus revelada a doutrina
que sustenta que a bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua
conceição, por singular graça e privilégio do Deus onipotente, em vista dos
méritos de Jesus Cristo, o Salvador do gênero humano, foi preservada imune de
toda mancha de pecado original, e dessa maneira deve ser onda firme e
constantemente por todos os fiéis.”
Os apologistas do dogma não dizem que Maria foi milagrosamente concebida,
sendo que ela teve seus país naturais. São Joaquim e Santa Ana afirmam, sim,
que ela nasceu sem pecado original, entendendo-se que este consiste na privação
da graça sobrenatural imerecida, graça que Adão e Eva tiveram a principio, mas
que perderam por sua desobediência.
O pecado original consiste, segundo a doutrina católica, em que todos os
seres humanos, por descendermos de nossos pais Adão e Eva, nascemos privados
dessa graça santificante, e, dessa maneira, é congênita em nós a tendência para
o mal. Maria participou, no entanto, de algumas das consequências do pecado de
Adão; esteve incluída na sentença adâmica, incorreu na dúvida, como todos os
demais, e não esteve isenta da morte; mas foi ela redimida por antecipação, em
vista dos feitos de seu próprio Filho e pela abundância da bondade de Deus.
Convém observar que, com a promulgação deste dogma papal, o primeiro em 18
séculos e meio, Pio IX pôs termo a uma controvérsia que havia abrangido várias
centúrias e que implicava numa ameaça de divisão nas filas romanistas. A
decisão do Papa adotada por ele e perante ele chegou a ser por isso mesmo uma
medida prática e oportuna e deixou bem clara a consolidação das pretensões do
papado, de absoluta autoridade sobre os Concílios Gerais e sobre a Igreja toda.
Apenas 16 anos depois, este mesmo Papa haveria de decretar, no Concilio
Vaticano I, o dogma da infalibilidade papal.
II. HISTÓRIA
No catolicismo, culto à Imaculada Conceição de Maria está muito difundido. A
dita festa começou a celebrar-se já no século XII, muito antes da proclamação
do dogma. Uma lenda atribui sua origem à ordem dada por um varão resplandecente,
o qual, havendo aparecido a um abade inglês, de nome Elpino, que se achava em
perigo de naufragar no marcom os seus companheiros,”… disse-lhes que
prometessem a Deus guardar cada ano a festa da Conceição de nossa Senhora, e de
exortar a outros que aguardassem ,e que desta maneira sairiam daquele perigo e
chegariam ao porto desejado”. (1)
Em 1140 a festa da Imaculada Conceição foi estabelecida pela primeira vez
por alguns cônegos de Lyon, França, os quais foram duramente censurados pelo
famoso São Bernardo como iniciadores de tal novidade. A este respeito, a
Enciclopédia de La Religion Católica diz: “Ao introduzir-se a festa em Lyon
soou a voz da oposição nada menos que de São Bernardo, por outra parte tão
grande Mariólogo; e sua autoridade atraiu outros ao seu parecer.” (2)
Na celebração desta festa, os católicos aplicam a Maria certas expressões de
Cântico dos Cânticos, como as seguintes: “Tu és toda formosa, amada minha, e em
ti não há mancha”; “Jardim fechado é minha irmã, minha noiva, sim, jardim
fechado, fonte selada”; “Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada; ela é a
única. .. a escolhida” (Cant.4:7, 12; 6:9).
Durante onze séculos a crença nesta doutrina foi desconhecida na igreja
cristã. Encontramos o primeiro vestígio dela nos meados do século XII, com a
instituição da festa, à qual nos referimos anteriormente. Apesar de se celebrar
na Igreja Oriental desde o ano 880 uma festa da Conceição em cada 9 de
dezembro, esta, no entanto, era só para celebrar o caráter milagroso de Maria,
já que sua mãe Ana era estéril (segundo uma lenda apócrifa). A idéia da
Imaculada Conceição se foi estendendo, mas de igual modo cresceu a oposição, a
ponto de desenvolver-se uma acesa e ampla controvérsia, na qual apaixonadamente
intervieram escolas de pensamento, ordens religiosas, igrejas nacionais e
proeminentes líderes. Principais contendentes na batalha foram os franciscanos,
que, com seu mestre Juan Duns Escotus, defendiam a Imaculada Conceição,
enquanto os dominicanos, com Tomás de Aquino os encabeçando, a negavam.
O Concílio de Trento, que decretou como artigos de fé muitas das
superstições medievais, se absteve, no entanto, de promulgar este novo dogma,
claro indício de que, à altura do ano 1545, a tal crença não contava ainda com
o apoio universal. Foi necessário que transcorressem dezoito séculos e meio
para que a Imaculada Conceição ingressasse oficialmente no credo católico
romano. Com efeito, o Papa Pio IX publicou em 2 de fevereiro de 1849 uma
Encíclica, a fim de que todos os bispos expressassem sua opinião a respeito, e,
ainda que muitos deles se pronunciassem contra. Posteriormente o Papa declarou
como novo dogma da Igreja Católica Romana, na presença de 54 cardeais e 140
bispos, a Imaculada Conceição de Maria.
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(1) P. Pedro de Ribadeneyra, Vida de ia Gloriosa Virgen Maria, p. 81.
(2) Tomo II, art. “Conceição Imaculada da Santissima Virgem”.
III. DEFESA ROMANISTA
Revisando a linha de argumentos invocados em defesa deste dogma, salta à vista
que são três os setores em que poderiam ser classificados: tradição, Biblia e
filosofia. Vejamo-los nessa ordem.
1. Tradição Patrística
Quanto a este ponto, se alega que os primeiros Pais expressaram–se em termos
altamente elogiosos sobre a pureza de Maria, do que resulta incongruente o fato
de ela ter sido manchada com o pecado original. Maria é mencionada como “a
segunda Eva – que, por sua descendência, chegou a ser a causa da sua própria
morte e da raça humana – pois também Maria, levando em seu seio o Homem
predestinado, e sendo, no entanto, uma virgem, por sua obediência, chegou a
ser, tanto para ela mesma como para todo o gênero humano, a causa de salvação.”
(1)
Santo Efrém, um dos Pais sírios do século IV, dedica uma prece a Maria, na
qual a invoca como “Virgem, Senhora, Mãe de Deus… Santíssima e benigníssima
Senhora”, que foi “…eleita como a mais sublime de todas gerações da terra”. E
acrescenta: “Bem-aventurada és por todos os séculos, gratíssima a Deus, mais
resplandescente que os querubins, e mais gloriosa que os serafins.” (2)
Certo é que há outros Pais e doutores da Igreja que ponderam a dignidade, a
beleza e a graça de Maria, mas ainda que se pudesse entender que alguns desses
elogios favorecem implicitamente a crença na Imaculada Conceição, não se pode,
no entanto, afirmar que o digam.
2. Argumento Bíblico
Como base bíblica deste dogma citam-se as palavras do Proto-evangelho, a
saber, as ditas por Jeová Deus à serpente em Gênesis 3:15, e as da saudação
angélica em Lucas 1:28. Nestas passagens, no entanto, o argumento não está
explícito, senão que simplesmente se deduz.
Na elaboração de sua exegese, os defensores da Imaculada se valem da Versão
Latina do Padre Jerônimo, onde se diz que a mulher esmagará a cabeça da
serpente. Logo, seu raciocínio é que, se neste versículo se faz referência à
mulher, que não é outra senão Maria, a promessa de que ela vencerá o diabo quer
dizer que o pecado não se assenhoreará dela nem sequer por um instante, e,
portanto, ela foi preservada de toda mancha desde o momento de sua concepção.
Quanto à passagem de Lucas, a Vulgata traduz as palavras do anjo Gabriel a
Maria assim: “Ave Maria, gratia plena…”, isto é, “cheia de graça”, do que se
estabelece que, havendo Maria sido cheia de graça, era impossível que ela
alguma vez houvesse cometido pecado, resultando disso sua imaculada Conceição.
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(1) Against Heresles, til, 22:4; Translations of the Writings of the Fathers,
p. 36, Ed. pelo Rev. Alexander Aoberts e James Donaldson, Vol. V, Edinburg: T.
and T. Clark, 38, George Street, 1868.
(2) Los Santos Padres, Edições Desclée, De Brouwer, Buenos Aires, 1946, Tomo
II, p. 448.
3. Razões de Conveniência
Segundo este ponto, era muito conveniente que a mãe do Senhor fosse preservada
do pecado original, e desta conveniência se deduz que assim sucedeu. Se
argumentam como razões as seguintes:
1) Maria foi a filha primogênita de Deus. A fim de substanciar esta
asseveração, os teólogos do romanismo aplicam a Maria o que a sabedoria
personificada diz de si mesma. Por exemplo: “Eu saí da boca do Altíssimo, a
primogênita antes de todas as criaturas” (Eclesiástico 24:5). “O Senhor me
possuiu no princípio de seus caminhos, desde o principio, antes que criasse
coisa alguma” (Prov. 8:22, versão católica).
2) O Pai Eterno a destinou para que fosse a reparadora do mundo e a
medianeira de paz entre Deus e os homens.
3) Maria havia sido destinada por Deus para ser a mãe de seu Filho
unigênito.
IV. REFUTAÇÃO EVANGÉLICA
1. Precisa de uma
Consistente Tradição Eclesiástica
O fio da tradição é realmente pouco resistente para sustentar o tão grande
peso deste dogma. O fato é que os Pais primitivos da Igreja não creram na
Imaculada Conceição nem dela falaram. Os testemunhos citados a favor desta
crença (lrineu, Santo Efrém e Santo Agostinho) se poderia dizer que a apóiam,
só por contradição, e ainda isto é duvidoso. A evidência é clara de que os
principais Pais não creram na impecabilidade de Maria.
Juan Duns Escoto (1265-1308), o mais hábil dialético de todos os
escolásticos e opositor teológico de Tomás de Aquino, é conhecido como defensor
da tese concepcionista; no entanto, o Dicionário Católico em inglês A Catholic
Dictionary, William E. Addis e Thomas Arnold diz o seguinte: “Juan Duns Escoto
dá sua própria opinião a favor da imaculada conceição com uma tal timidez, que
claramente revela seu conhecimento de que a opinião geral estava do outro lado.
Depois de sustentar que Deus poderia, se quisesse, haver isentado a bendita
Virgem do pecado original, por outro lado, poderia ter permitido a ela
permanecer debaixo dele por um tempo e então havê-la purificado. Acrescenta ele
(Juan Escoto) que “Deus sabe” qual destas duas possíveis maneiras foi realmente
tomada; “…mas se não é contrário à autoridade da Igreja ou dos santos, parece
recomendável (probabile) atribuir aquilo que é mais excelente a Maria.”
No ponto número três do artigo em referência o autor do mesmo acrescenta:
“Petavius – justamente, segundo cremos – repudia muitas passagens dos Pais, que
citamos em apoio da doutrina. Ele faz notar que, se os Pais falam de Maria como
“sem mancha”, “incorrupta”, “imaculada”, de nenhuma maneira se entende que eles
creram que ela foi imaculadamente concebida.”
A amarga e odiosa controvérsia entre tomistas e escotistas sobre o assunto
da Imaculada Conceição, além de constituir um espetáculo pouco edificante no
seio da Igreja, é uma prova mais do que irregular da tradição invocada.
A. Rejeitada por Pais e
Doutores da Igreja
São muitos os testemunhos que se acham nos escritos dos Pais e doutores que,
por um lado, corroboram a impecabilidade de Cristo e, por outro, admitem a
participação que Maria teve, igualmente com todos os homens, no pecado original
da raça humana. Desta maneira, o tão apetecido “consentimento unânime dos Pais”
se levanta antes contra a idéia de imaculada conceição que a favor dela.
Citamos os mais importantes.
Eusébio de Cesaréia (265-340): “Ninguém está isento da mancha do pecado
original, nem mesmo a mãe do Redentor do mundo. Só Jesus achou-se isento da lei
do pecado, mesmo tendo nascido de uma mulher sujeita ao pecado.” (1)
Santo Ambrósio, Doutor da Igreja e Bispo de Milão (século IV), comentando
Salmos 118: “Jesus foi o único a quem os laços do pecado não venceram; nenhuma
criatura concebida pelo contato do homem e da mulher foi isenta do pecado
original; só foi isento Aquele que foi concebido sem esse contato e de uma
virgem, por obra do Espírito Santo.” (2)
Santo Agostinho, Doutor da Igreja (354-430), comentando Salmos 34:3, diz:
“Maria, filha de Adão, morreu por causa do pecado; e a carne do Senhor, nascida
de Maria, morreu para apagar o pecado.” (3)
(4) Os Escolásticos
Transcrevemos integralmente duas citações de obras católicas romanas: “Em certo
estado de desenvolvimento, a questão foi estudada pelos escolásticos e, coisa
rara, quase todos creram que a doutrina da imaculada não estava em harmonia com
a universidade do pecado original e da redenção. Sto. Anselmo, Sto. Alberto,
Pedro Lombardo, Alexandre de Hales, São Boaventura, Santo Alberto Magno e São
Tomás, ainda que ternamente devotos da Mãe de Deus e prontos a defender seus
muitos privilégios, contudo, ensinaram que havia sido concebida em pecado
original.” “Entretanto, ainda que os escolásticos mais conspícuos antes do
século XIV se opusessem terminantemente à Imaculada Conceição, não faltaram
outros, de menos fama, que com igual resolução defenderam esta prerrogativa da
Virgem por todos os meios que estavam ao seu alcance.” (4)
“No século XIII, a época da escolástica, vem ao nosso encontro o fato
surpreendente de que a maioria dos grandes teólogos se declara bem
explicitamente contra a Conceição Imaculada. Da mesma maneira Alexandre de
Hales, o próprio São Tomás nas passagens autênticas, Sto. Alberto Magno, São
Boaventura, Juan de la Rochelle, Pedro de Tarentasia, Henrique de Gante,
Egidio, Romano, etc.” (5)
a) Sto. Anselmo, Doutor da Igreja, Arcebispo de Canterbury (1033-1109) disse
a respeito:
“Mesmo sendo Imaculada a Conceição de Cristo, não obstante a mesma virgem,
da qual ele nasceu, foi concebida na Iniqüidade e nasceu com o pecado original,
porque ela pecou em Adão, assim como por ele todos pecaram.” 1
b) São Bernardo (1140): “Só o Senhor Jesus Cristo foi concebido do Espírito
Santo, porque era o único santo antes da conceição; com sua exceção, se aplica
a todos os nascidos de Adão o que Alguém confessou humilde e verazmente de si:
Eis que eu nasci em pecado, e em pecado me concebeu minha mãe.” 2
c) Boaventura, apesar de ser o guia dos teólogos franciscanos, escreveu o
testemunho de que “todos os santos que fizeram menção deste assunto com uma só
voz asseveraram que a bendita virgem foi concebida em pecado original”.
d) São Tomás de Aquino (século XIII). Este célebre Doutor da Igreja, o mais
renomado dos teólogos católicos, foi o paladim dominicano na controvérsia
contra a Imaculada Conceição. Em sua famosa obra Suma Teológica, parte III,
pergunta XXVII, diz: “Santificação da Bem Aventurada Virgem Maria”, art. II. “A
bem Aventurada Virgem foi santificada antes de receber vida?” Respondemos que a
santificação da bem-aventurada Virgem não pode entender-se antes de receber a
vida…se a bem-aventurada Virgem houvesse sido santificada de qualquer modo
antes de receber a vida, nunca teria incorrido na mancha do pecado original; e,
portanto, não teria necessitado da redenção e da salvação, que é por Cristo, de
quem se diz: …porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mat. 1.21).
Mas é inconveniente que Cristo não seja o salvador de Todos os homens como
se diz (I Tm. 4.10). Logo, segue-se que a santificação da bem-aventurada Virgem
nunca houvesse sido contagiada do pecado original, isto derrocaria a dignidade
de Cristo, que não necessitou ser salvo, como salvador universal, a maior
pureza seria a da bem-aventurada Virgem: porque Cristo de maneira alguma
contraiu pecado original senão que foi santo em sua mesma conceição segundo o
texto (Luc. 1.35)…ao passo que a bem-aventurada Virgem contraiu o pecado
original, mas foi purificada dele antes que saísse do seio (materno).”
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(1) Teófilo Gay, Dlcclonârlo de Controversia, Junta Bautista de Publicaciones,
Buenos Aires, p. 423.
(2) lbid., p. 423
(3) Santo Agostinho, Enarr. em Salmos 34:3. Rev. Ricardo Federico
Littledate,
Razones Sencillas contra los Errares Y Ias Innovaciones dei Romanismo, p. 16.
(4) Juan Rosanas, S.1. Historia de los Dogmas, iii, Ed. cultural, Buenos
Aires, 1945, pp. 173 e 174.
(5) Enciciopedia de ia Reilgión Católica, Art. “Concepciõn lmmaculada de lá
Santissima Virgen”.
B) Rejeitada por vários papas
(1) leão I (440-461) diz: “Assim como nosso Senhor não encontrou a ninguém
isento de pecado, assim também veio para o resgate de todos” 3 Se fosse certa a
imaculada conceição de Maria, esta afirmação papal seria falsa.
(2) Gregório, o Grande, cuja sabedoria todos reconhecem, comentando a
passagem de Já 14:4, expressa que Jesus Cristo é o único que não foi concebido
de sangue impuro e o único também que foi verdadeiramente puro em sua carne.
Não faz menção de Maria.
(3) lnocêncio III diz: “Eva foi formada sem culpa, e engendrou na culpa;
Maria foi formada na culpa, e engendrou sem a cuIpa.”1
2. Necessita de uma Base Bíblica
Apesar de a fórmula dogmática declarar que esta doutrina foi revelada por
Deus, o certo é que nas páginas das Sagradas Escrituras não há nem a mais leve
insinuação de que a mãe do Senhor houvesse sido concebida imaculadamente. O
testemunho positivo da Bíblia faz, sim, impossível a afirmação deste dogma.
a. Nos Evangelhos
Uma leitura cuidadosa das 23 passagens do Novo Testamento que direta ou
indiretamente aludem a Maria nos permitirá ver que apesar de, nos Evangelhos, a
posição dela não ser em alto grau especial ou proeminente, sua distinção, no
entanto, se faz ostensiva em seu caráter humilde e piedoso. Sua pessoa nos está
apresentada dentro de um limite impressionantemente humano. Ela é mãe solicita,
esposa fiel e uma israelita temente a Deus. Os relatos evangélicos não a
rodeiam de adornos artificiosos; não lhe rendem homenagem desnecessária nem a
recomendam como salvadora ou milagreira. Seu maior favor recebido foi o de
haver sido escolhida do Senhor para abrigar em seu seio virginal a forma humana
do Verbo eterno; seu maior gozo foi haver-se submetido voluntariamente aos
desígnios misteriosos de Deus; e sua maior glória foi haver crido em seu
próprio Filho Jesus como o Salvador de sua alma. Se ela não cometeu pecado
durante sua vida terrena, é de todo ponto de vista incompreensível o silêncio
absoluto que sobre tal coisa guardam os Evangelhos. Por que no caso de Jesus as
Escrituras são claras com respeito a sua perfeição moral, mas no caso de sua
mãe guarda silêncio? A razão é óbvia.
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(1) ibid., p. 425.
b. Na doutrina de que todos os homens são pecadores
A Bíblia é igualmente clara em mostrar a doutrina da universalidade do
pecado. Adão, o progenitor do gênero humano, pecou, e pelas leis da herança ele
transmitiu a todos os seus descendentes a natureza pecaminosa e as
conseqüências nefastas da transgressão. “Eis que eu nasci em iniqüidade, e em
pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5). “Pois não há homem justo sobre
aterra, que faça o bem, e nunca peque” (Ecl. 7:20). “Porque todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus” (Rom. 3:23; 5:12).
Nas passagens citadas não se indica a isenção de Maria; logo, ela, como
descendente de Adão, participou não somente das conseqüências da queda, senão
do pecado original mesmo. As palavras de Maria, em seu cântico em Lucas
1:46-55, confirmam esta tese quando ela exclama: “A minha alma engrandece ao
Senhor; e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador.”
Por que Maria chamou a Deus seu Salvador? Porque ela, da mesma maneira que
todos os homens, necessitou salvar-se e obter a vida eterna pelo arrependimento
e a fé. Em Mateus 1:21 lemos a mensagem dada pelo anjo a José “…ela dará à luz
um filho, a quem chamarás JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus
pecados.” Segundo isto, e sendo que Jesus era Deus mesmo velado em carne, o
próprio filho de Maria foi seu Salvador, não no sentido de que a houvesse
preservado da mancha do pecado original e de todo pecado atual, pois que não se
trata disto, senão redimindo-a, igual a todos, da condenação eterna.
Estas notas, no entanto, não querem dizer que a Virgem Maria tenha sido uma
mulher perversa e desprezível; de todos os pontos de vista, foi ela uma
senhorita honesta, uma dama religiosa e santa. Bem podemos tomá-la como exemplo
de virtudes e dar graças a Deus pela inspiração que sua vida produz em nós. Não
se pode, porém, passar deste limite, sem correr o risco de cair no meramente
especulativo e, o que é ainda pior, em terreno inseguro e falso.
3. Necessita de Suficiente Base Racional
Ao ler as obras literárias dedicadas a exaltar Maria, logo se percebe que é
neste ponto de supostas razões lógicas que os defensores do dogma da Imaculada
fazem apoiar com mais força e mais confiança sua tese concepcionista. Esgrimem
com habilidade o argumento da conveniência, isto é, que pelo fato de que Maria
foi a escolhida para ser a mãe do Senhor, ou de Deus, como prefere dizê-lo a
fraseologia romanista, era então muito conveniente sua imaculada conceição; e
ainda as outras crenças sobre Maria, como a da Assunção se fazem depender desta
mesma conveniência ou suposição.
É fácil ver, no entanto, que esta asseveração, bem intencionada, certamente,
não deixa de ser um simples desejo ou uma conjectura piedosa. O fato de uma
coisa parecer-nos mui conveniente ou desejável não prova desde logo que o seja.
Seria conveniente que ninguém adoecesse, mas a realidade é outra. Se deduz
também que como Deus é Onipotente, foi fácil para ele realizar o milagre da
imaculada conceição de Maria. A este respeito cita-se o famoso silogismo PotuIt
DecuIt Cesit (“Pôde e quis, logo, o fez”). Não se nega, está claro, que para
Deus não há nada impossível, mas tampouco isto prova que o dogma da Imaculada
Conceição descanse sobre uma base real. Deus pode haver criado todas as coisas
em um segundo de tempo, mas isto não é uma evidência de que assim foi. Resulta,
por conseguinte, extremamente perigoso o definir uma doutrina sobre o inseguro
argumento da conveniência.
Mas ainda existe algo mais: de um ponto de vista racional, pode-se
considerar como improvável a imaculada conceição de Maria, devido às seguintes
razões:
a. Porque teria que haver uma conceição Imaculada em cadeia
Se para Jesus ser imaculado fosse necessário que sua mãe também o houvesse
sido, logicamente entende-se que as mesmas razões existem para que houvessem
sido imaculadas a mãe de Maria e sua avó, e assim sucessivamente, até chegar a
Eva. Esta é uma conseqüência teórica que, ainda que repugne ao bom sentido,
temos que admitir, se aceitamos como válidas as suposições apologéticas dos
concepcionistas marianos.
b. Porque a santidade de Jesus não dependo de sua relação com sua mãe
Jesus foi santo, mesmo não o tendo sido sua mãe, pois ele não recebeu sua
santidade por herança ou associação. Ele foi sem mácula alguma, em primeiro
lugar, porque ele não foi concebido de varão, senão por obra do Espírito Santo;
e, em terceiro lugar, porque era Deus encarnado, apesar de nunca ter usado de
sua deidade para ganhar a vitória, vencendo apenas como homem. Não se trata de
uma santidade a ele concedida em forma mecânica e milagrosa; a santidade do
Senhor foi o ambiente natural de uma vida que, além de sua origem divina, se submeteu
totalmente à influência e direção do Espírito de Deus.
c. Porque se desumaniza a Maria
Um derivado da tese concepcionista é que, ao pretender que Maria tenha sido
imaculada em sua conceição e necessariamente em sua vida também, quer dizer que
ela nunca chegou a ser, propriamente falando, uma criatura humana nem viveu uma
verdadeira vida humana. Este dogma erradica a Virgem da família humana, a reduz
a um quase bosquejo de personalidade humana e faz de sua vida um fantasma. A
despoja, realmente, do fundamento de sua verdadeira grandeza, qual seja, a de
que, sendo ela uma criatura como todas, embelezou, no entanto, seu caráter e
imortalizou seu nome com as virtudes de sua abnegação, de sua piedade e de sua
obediência. Os Evangelhos nos apresentam uma Maria humana, santa e humilde por
esforço próprio, o que reclama admiração e respeito, e não uma Maria divinizada
e artificialmente sem pecado.
V. EXEGESE DEFEITUOSA
Interpretação de Gênesis 3:15 e Lucas 1:28
Foi dito anteriormente que estas duas passagens são citadas pelos teólogos
católicos como o baluarte bíblico a favor da Imaculada Conceição, apesar de
admitirem que o argumento o é por implicação.
Esta tese necessita de base em duas coisas: na tradução de ambas as
referências bíblicas e nas afirmações que dela derivam. Este erro de tradução
aparece primeiro na Vulgata Latina, da qual, até bem poucos anos, se faziam
todas as versões católicas da Bíblia.
a) Gênesis 3.15
A versão em espanhol de Torres Amat traduz Gênesis 3:15 assim: “Eu porei
inimizade entre ti e a mulher, e entre tua semente e a sua semente; esta te
ferirá na cabeça, e tu lhe ferirás no calcanhar.” Quem esmagará a cabeça da
serpente, isto é, do diabo? Tanto a tradução como a exegese católicas dão a
entender que a promessa de vitória sobre o inimigo das almas aqui é dada à
mulher, que não é outra senão a Virgem Maria. Em nota de rodapé desta passagem,
Torres Amat explica: “ou então: Quebrantará tua cabeça a mulher, que, cheia de
graça, dará à luz o Filho de Deus.”
O pronome “ela”, nesta passagem, é impossível que possa referir-se a uma
mulher, sendo que no original hebraico é “ele”, pronome demonstrativo no gênero
masculino, e, portanto, o original hebraico requer a tradução Ipsum e não Ipsa
como traduz a Vulgata. Não se refere, pois, à mulher, e, sim, à sua semente,
que é Cristo. As versões protestantes da Bíblia traduzem corretamente este
versículo. Por exemplo, a Revisão de 1960 diz: “Porei inimizade entre ti e a
mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça,
e tu lhe ferirás o calcanhar.” È justo admitir, no entanto, que as recentes
versões católicas da Bíblia, feitas pela primeira vez diretamente das línguas
originais, corrigiram o erro da tradução apontada. Nácar-Colunga, por exemplo,
traduz assim: “Ponho perpétua inimizade entre ti e a mulher, e entre tua
linhagem e a sua: este te esmagará a cabeça, e tu morder-lhe-ás o calcanhar.”
A análise lingüística e gramatical de Gênesis 3:15 como sua exegese dentro
do contexto bíblico, nos leva, por conseguinte, a uma clara e lógica conclusão:
que é a semente da mulher (Jesus Cristo), e não, a mulher mesma (neste caso,
Maria, acerca da qual evidentemente é uma referência profética) quem esmagaria,
isto é, que derrotaria completamente o diabo. Portanto, Jesus Cristo fez
precisamente isso, não só através de sua vida sem mácula, senão e especialmente
por meio de sua morte vicária na cruz, o que é ensinamento nítido do Novo
Testamento. Hebreus 2:14: “Portanto, visto como os filhos são participantes
comuns de carne e sangue, também ele semelhantemente participou das mesmas
coisas, para que pela morte derrotasse aquele que tinha o poder da morte, isto
é, o Diabo.” 1 João 3:8: “Quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca
desde o principio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as
obras do Diabo.” Em contrário, não há uma só passagem no Novo Testamento em que
se aplique a Maria o cumprimento da vitória completa sobre Satanás, anunciada
por Jeová Deus em Gênesis 3:15.
b) Lucas 1.28
As versões católicas da Bíblia traduzem a passagem de Lucas 1:28 assim:
“Entrando, pois, o anjo onde esta estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de
graça! O Senhor é contigo!” (Nácar-Colunga). Novamente temos aqui um erro de
tradução, com o qual se quer justificar todas as chamadas “glórias de Maria”. A
frase “cheia de graça” não é exatamente o que diz o grego original do Novo
Testamento, senão que se trata do particípio perfeito do verbo xaritoo, que
significa “favorecida”, “ser o objeto de um gracioso convite” (literalmente,
agraciada). A Revisão de 1960 traduz corretamente: “E entrando o anjo onde ela
estava, disse: Salve agraciada; o Senhor é contigo.” A mesma nota que aparece
no rodapé da página em Nácar-Colunga é uma cândida profissão do verdadeiro
sentido da frase em grego, de modo que a tradução da dita frase no texto
aludido resulta tendenciosa. “Cheia de graça” é a tradução que dão as antigas
versões ao particípio “agraciada”, “gratificada” em sumo grau. O anjo emprega
este particípio à maneira de nome próprio, o que aumenta a força de seu
significado. A piedade e a teologia cristãs afastaram daqui todas as exaltações
de Maria. A análise lingüística superficial demonstra, por conseguinte, que não
se trata da concessão de alguma virtude especial para não pecar, senão simplesmente
de um favor, de uma graça imerecida, qual é a de ser a mãe do Salvador.
Em Efésios 1:6 aparece este mesmo verbo no sentido que apontamos. E em Atos
6:8 se emprega a frase “cheia de graça”, pois diz:
“Ora, Estêvão, cheio de graça e poder (‘cheio de graça e de virtude’,
Nácar-Colunga), fazia grandes prodígios e sinais entre opovo.” De modo que, se
da frase (ainda que exagerada) de Gratia plena quer-se deduzir tantos
privilégios, deve-se fazer de Estêvão e todos os fiéis participes iguais dos mesmos
(Atos 4:33; II Cor. 9:8).
Também, ao anunciar o anjo Gabriel a Zacarias a concepção de João, o
Batista, o precursor de Jesus, empregou palavras de que, seguindo o método de
interpretação romanista, teríamos que deduzir que João, o Batista, foi sem
pecado mesmo desde sua concepção, sendo que o anjo disse: “Não beberá vinho,
nem bebida forte; e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe”
(Luc. 1:15, Torres Amat). Assim sendo, sabemos que não é tal o caso aqui,
tampouco o é, e com menos base escritural ainda, na saudação do anjo a Maria.
VI. A IMACULADA CONCEIÇÃO E O CONCÍLIO VATICANO II
No “Esquema sobre a Constituição Dogmática da Igreja”, no Capitulo VIII, os
Pais conciliares trataram sobre o tema “O Papel da Bendita Virgem Maria, Mãe de
Deus, no Ministério de Cristo e da Igreja”. Propriamente falando, a discussão
não girou em torno do dogma da Imaculada Conceição. No entanto, a redação do
capitulo não deixa margem a dúvidas de que o Concílio confirmou o dogma
Mariano. Afirmações, como as seguintes, o demonstram: “Devido a este dom de
graça sublime, ela sobrepassa a todas as demais criaturas, tanto no céu como na
terra.” (1) “Não é de estranhar, então, que o uso prevaleça entre os santos
Padres, pelo qual eles chamaram a mãe de Deus inteiramente santa e livre de
toda mancha de pecado, formada pelo Espírito Santo em uma classe de nova
substância e nova criatura.”(2) “Adornada desde o primeiro instante de sua
conceição com os esplendores de uma santidade inteiramente única, a Virgem de
Nazaré é, pelo mandato de Deus, saudada por um anjo mensageiro como ‘cheia de
graça’.” (3) “Corretamente, portanto, os santos Padres a vêem como usada por
Deus não meramente em uma maneira passiva, senão como cooperando na obra da
salvação humana através de fé e obediência livres.” (4) “Esta união da Mãe com
o Filho na obra da salvação se manifestou desde o tempo da concepção virginal
de Cristo até sua morte.” (5) “Finalmente, preservada e livre de toda culpa de
pecado original, a Virgem Imaculada foi levada em corpo e alma à glória
celestial, ao terminar sua peregrinação terrenal.” (6)
Realmente nos surpreende esta linguagem tão desautorizada e leviana. Isto
quer dizer, então, que Roma não cedeu nada no que concerne à Mariologia. As
posições continuam iguais.
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(1, 2, 3, 4, 5, 6) Walter M. Abbott, S.J.: The Documenta of Vaticano II – Guild
Press:
CONCLUSÃO
Concluímos, pois, que o dogma da Imaculada Conceição de Maria é
insustentável porque ele não tem nenhum valor prático para a teologia cristã ou
para a salvação do homem; e porque, em lugar de este dogma nos aproximar da
fonte pura do evangelho e da suprema pessoa de Jesus Cristo, antes nos afasta,
para fazer-nos incorrer no pecado de “honrar à criatura, antes que ao Criador,
o qual é bendito pelos séculos”.